Júlia Silva

Inclusão de Pessoas LGBTQIAP+ nas empresas: como fazer?

Assexuais, lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros compõem 12% de toda a população brasileira. São quase 20 milhões de pessoas que têm levantado uma importante bandeira no dia a dia corporativo: a inclusão de pessoas LGBTQIAP+ nas empresas.

Por isso, independentemente da sua orientação sexual e de gênero, compreender o assunto é necessário. Especialmente, porque a importância da inclusão LGBT está ligada a uma constante sensibilização sobre respeito, empatia e diversidade.

E tudo isso envolve, é claro, o setor de RH.

Quanto mais pessoas falarem sobre isso, melhor pode ser a vida para todos — dentro e fora das empresas. Vamos descobrir, então, como trabalhar a inclusão LGBT no mercado de trabalho de forma assertiva? Siga com a leitura deste post!

O que é inclusão LGBTQIAP+?

A inclusão LGBTQIAP+ tem a ver com a garantia de que pessoas lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros, queer, intersexuais, assexuais, pansexuais e de outras identidades de gênero e orientações sexuais sejam tratadas com igualdade, respeito e dignidade.

Isso inclui não apenas o ambiente de trabalho, mas todas as esferas da sociedade para reconhecer e valorizar a diversidade de identidades de gênero e orientações sexuais. Por isso, envolve ações como:

  • Promover políticas inclusivas;
  • Combater a discriminação e o preconceito;
  • Criar ambientes seguros e acolhedores para todas as pessoas.

O que significa cada letra da sigla?

A sigla LGBTQIAP+ representa uma grande variedade de identidades de gênero e orientações sexuais, sendo que cada letra tem um significado:

  • L: Lésbicas, que incluem as mulheres que possuem atração por outras do mesmo gênero;
  • G: Gays, que representa os homens que possuem atração por outros do mesmo gênero;
  • B: Bissexuais, que é um grupo que possui atração por homens e mulheres;
  • T: Transgênero ou Trans, que incluem as pessoas que não se identificam com o gênero atribuído no seu nascimento;
  • Q: Queer, que identifica as pessoas que não se sentem adequadamente representadas nem pelo gênero feminino, nem masculino, ou que transitam entre ambos;
  • I: Intersexo, que define um grupo que possui características biológicas de ambos os sexos, ou que de alguma forma não se enquadram nas definições binárias de feminino e masculino;
  • A: Assexuais não sentem atração sexual por outras pessoas, independentemente do gênero delas;
  • P: Pansexuais, que identificam aqueles que sentem atração por pessoas por diferentes identidades de gênero, indo além do feminino e masculino.

Já o sinal de mais (+) indica inclusão de outras identidades de gênero e orientações sexuais, que podem não ser abrangidas pelas letras da sigla principal. E é interessante observar, justamente, o aumento da sigla ao longo dos anos.

A evolução histórica da sigla

Afinal, a história por trás do movimento é marcada por lutas por igualdade, direitos civis e reconhecimento a partir de eventos históricos como a Revolta de Stonewall, de 1969. Foi quando a comunidade LGBTQIAP+ resistiu à opressão policial em um bar gay em Nova Iorque.

Desde então, houve avanços em termos de legislação, conscientização e visibilidade LGBTQIAP+, mas também persistem desafios, como discriminação, violência e falta de direitos em muitas partes do mundo. 

Dentro das empresas, inclusive. Por isso, o movimento resiste e persiste, para lutar por igualdade, inclusão e respeito para todas as pessoas, independentemente da sua orientação sexual ou identidade de gênero.

Vale dizer que, atualmente, não há um consenso sobre qual sigla deve ser usada. Com a evolução das discussões, da primeira versão até hoje, foram incluídas letras que contribuem para o aumento da visibilidade de cada grupo. 

Como é o cenário da inclusão LGBTQIAP+ no Brasil?

Falar sobre diversidade e inclusão é uma necessidade em um país com mais de 19 milhões de representantes da comunidade LGBTQIAP+. Especialmente, porque o assunto não avança tão rápido quanto a quantidade de profissionais que se identificam com a luta e buscam oportunidades no mercado de trabalho.

A contratação de pessoas LGBTQIAP+ ainda é limitada em muitas empresas. Sem falar que muitas pessoas sequer compartilham suas respectivas orientações sexuais no trabalho por medo de preconceito e retaliação. 

Isso significa que muitas organizações ainda estão na fase de conscientização para tratar do assunto.

E essas são razões importantes para dar um passo maior rumo ao compartilhamento de conhecimentos, para que a inclusão LGBTQIAP+ nas empresas deixe de ser um tabu ou a exceção e, sim, um elemento presente na cultura das empresas.

Qual é a importância da inclusão LGBTQIAP+ no mercado de trabalho?

A presença de profissionais LGBTQIAP+ no mercado de trabalho contribui para a diversidade e representatividade nas empresas. Isso ajuda a criar ambientes mais inclusivos e acolhedores, onde todas as pessoas se sentem valorizadas e respeitadas.

Além disso, a diversidade de experiências e perspectivas pode impulsionar a inovação dentro das organizações. Ao promover um ambiente inclusivo, as empresas podem incentivar a imaginação e a colaboração e gerar soluções mais criativas.

Também dá para destacar a melhora no clima organizacional, já que todas as pessoas passam a se sentir acolhidas e respeitadas. Isso pode promover, também, a motivação e dedicação ao trabalho.

E, por fim, ao adotar políticas inclusivas, muitas empresas conseguem melhorar seus índices de atração e de retenção de talentos, já que profissionais LGBTQIAP+ — e muitos outros que, apesar de não se identificar com a comunidade, respeitam a causa — valorizam empresas que respeitam sua identidade e oferecem um ambiente de trabalho seguro e acolhedor.

Quer aprender um pouco mais sobre o assunto? O vídeo abaixo pode complementar os pontos que abordamos até aqui:

https://www.youtube.com/watch?app=desktop&v=jc9xco5fRkM

Como o RH pode ajudar a promover a inclusão LGBTQIAP+ dentro das empresas?

Inclusão tem tudo a ver com a gestão de pessoas e, consequentemente, isso está diretamente ligado ao trabalho do seu setor de RH.

Sua equipe pode desenvolver uma série de ações e campanhas para criar e nutrir um ambiente de trabalho mais inclusivo. Confira algumas ideias:

  • Implementação de políticas de não discriminação (de qualquer forma). Essas políticas devem ser comunicadas e reforçadas de forma clara, recorrente e ampla a todos os funcionários;
  • Treinamentos e workshops sobre diversidade e inclusão para todos, com foco especial na comunidade LGBTQIAP+. Esses encontros podem ajudar a aumentar a conscientização sobre as questões enfrentadas pela comunidade, a promover a empatia e o respeito mútuo;
  • Práticas de recrutamento inclusivas, garantindo que o processo de contratação seja livre de preconceitos e que todas as candidaturas sejam avaliadas com base em suas qualificações e experiências profissionais, independentemente da orientação sexual ou identidade de gênero;
  • Benefícios que sejam inclusivos e que também atendam às necessidades da comunidade LGBTQIAP+ — alguns exemplos: a cobertura de despesas médicas relacionadas à transição de gênero, licença parental adaptada para casais do mesmo sexo e programas de apoio à saúde mental;
  • Comunicação Inclusiva, para garantir que toda a comunicação interna da empresa seja inclusiva e respeitosa com a comunidade LGBTQIAP+. Algo que pode ser feito tanto com a linguagem neutra em relação ao gênero e por meio de eventos e iniciativas relacionados à diversidade e inclusão.

Cases de sucesso de inclusão e diversidade nas empresas

Sabe onde mais você pode encontrar inspiração? No próprio mercado. Como o mundo inteiro tem expandido sua visão sobre a relevância do tema, algumas ações ganharam destaque e podem (e devem) servir de espelho para que mais organizações abracem a causa.

SAP

É o caso da SAP, líder mundial em tecnologia, que recebeu o Certificado Global de Igualdade de Gênero por suas diversas iniciativas inclusivas — como o Pride@Sap, que promove representatividade para a comunidade LGBT.

Porto

A Porto, empresa de seguros, também implementou algumas iniciativas — como um projeto para promover a inclusão de pessoas trans no mercado de trabalho, e ações de sensibilização dos colaboradores sobre a temática LGBTQIAP+, entre outras campanhas, em parceria com a Transcendemos, empresa de consultoria em diversidade e inclusão.

Grupo Sabin

O Grupo Sabin é outra marca focada em inclusão LGBTQIAP+ no trabalho. O Guia Sabin de Diversidade e Inclusão lidou abertamente com os temas, trazendo reflexão, empatia e o reforço a um ambiente aberto ao diálogo, acolhedor e livre de preconceitos.

Accenture

Tem, ainda, exemplo do esforço constante da Accenture (empresa de consultoria de gestão) para equilibrar gêneros em suas contratações. Para isso, definem seis pilares de diversidade:

  1. Mulheres, com o One Awake; 
  2. Sem Barreiras, para pessoas com deficiência; 
  3. Pride, nossa comunidade LGBTQIAPN+; 
  4. Color Brave, para diversidade étnico-racial; 
  5. Grand Masters, com foco geracional para pessoas acima de 50 anos; e 
  6. Cross Culture, voltado às diferentes culturas e religiões.

Qual é a porcentagem de pessoas que se declaram LGBTQIAP+ no mercado de trabalho?

Recentemente, a consultoria global Great Place To Work (GPTW) compartilhou os resultados da sua pesquisa Diversidade e Inclusão (D&I)

E já chama a atenção o percentual de liderança no país: de todos os entrevistados, 92% se identificaram como cis heteronormativas — pessoas que se identificam com o sexo atribuído a elas e que têm atração pelo gênero oposto.

Além disso, apenas 10% das pessoas ouvidas se autodeclaram LGBTI+. Em cargo de liderança, o percentual é menor: 8% do total é LGBTI+.

Na presidência das empresas, ainda menos: somente 6% se autodeclararam LGBTI+.

Para o estudo acima citado, foram recebidas 14.042 respostas. O que evidencia — mais uma vez — a necessidade de falarmos aberta e francamente sobre a inclusão LGBT nas empresas.

Quais são as dificuldades da comunidade LGBT para ingressar no mercado de trabalho?

Existem múltiplos desafios para ingressar e se manter no mercado de trabalho. No caso da comunidade LGBTQIAP+, esses obstáculos giram em torno de:

  • Discriminação — tanto nos processos seletivos quanto no ambiente de trabalho;
  • Estigma e preconceito, que têm efeitos negativos tanto na autoestima quanto no desempenho profissional;
  • Falta de proteção legal. Aqui, podemos falar tanto de políticas pouco esclarecidas (e claras) internas, quanto de uma legislação que proteja, explicitamente, os trabalhadores LGBT;
  • Barreiras de acesso à educação e oportunidades. Pessoas que enfrentaram discriminação podem ter dificuldades adicionais para adquirir habilidades e qualificações necessárias para entrar no mercado de trabalho. Além disso, algumas empresas podem não oferecer oportunidades de desenvolvimento profissional igualitárias;
  • Medo de revelar a identidade, seja por receio de discriminação dos colegas ou pelo estigma enraizado na sociedade. São questões que, muitas vezes, levam os LGBT a esconderem sua identidade no local de trabalho, o que pode causar estresse e ansiedade. Além de limitar sua capacidade de autenticidade e de engajamento no ambiente profissional.

Abordar essas questões requer esforços contínuos de sensibilização, implementação de políticas inclusivas e criação de ambientes de trabalho seguros e acolhedores para todos os funcionários, independentemente de sua orientação sexual ou identidade de gênero.

Dicas para aprender mais sobre o tema

Quer dar os primeiros passos rumo à inclusão LGBT no trabalho? Alguns materiais complementares podem contribuir com tudo o que já vimos neste post e impulsionar a inspiração da sua equipe para elaborar as suas próprias campanhas de inclusão.

Livros

Podcasts

  • "HR Works: The Podcast for Human Resources", com enfoque ocasional em tópicos relacionados à inclusão LGBT no local de trabalho;
  • Ângulos, o Podcast de Inclusão & Diversidade da Accenture; 
  • Diversitalk, que é produzido pela Mais Diversidade, que aborda diversas questões relacionadas à inclusão de grupos minorizados.

Além disso, recomendamos que você e a sua equipe conheçam as leis antidiscriminação que protegem os direitos dos trabalhadores LGBT no local de trabalho em todos os territórios onde a empresa atua. 

E, também, familiarize-se com as políticas de inclusão e diversidade adotadas por empresas líderes em diferentes setores.

Esses recursos podem oferecer algumas informações práticas e valiosas para promover a inclusão LGBT no mercado de trabalho e criar ambientes profissionais mais acolhedores e igualitários.

Conclusão

A inclusão LGBTQIAP+ nas empresas é uma pauta muito atual, necessária para promover ambientes profissionais mais igualitários e acolhedores. Com cerca de 12% da população brasileira identificando-se como parte dessa comunidade, compreender e valorizar a diversidade é essencial. 

Afinal, a história do movimento LGBTQIAP+ é marcada por lutas por igualdade, direitos civis e reconhecimento, mas que ainda vivencia desafios persistentes, como discriminação e falta de direitos — também dentro das empresas. 

Por isso, promover a inclusão é necessário. E não apenas porque beneficia as pessoas LGBTQIAP+, mas porque tem tudo a ver com outros benefícios organizacionais, como o estímulo à inovação, a melhora do clima organizacional e a capacidade aumentada das empresas de atrair e reter talentos.

Falamos, inclusive, de ações que o departamento de Recursos Humanos pode estar à frente, como a implementação de políticas inclusivas, treinamentos sobre diversidade e inclusão, práticas de recrutamento sem vieses e a comunicação inclusiva.

Explore as dicas deste post e tudo mais que selecionamos para trabalhar a inclusão LGBTQIAP+ no trabalho. E, se precisar de algumas dicas extras e mais práticas, baixe o nosso e-book sobre diversidade e inclusão nas empresas!